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CINEMAPOBRE - Efeito Filtro

logode Ricardo Leite

 

Através dos filmes que têm sido criados nos últimos tempos e a que tem sido atribuída a designação de cinema pobre, algum fenômenos têm sido ressalvados. A um desses fenômenos poderemos chamar de efeito filtro. Essa filtragem é evidente em grande parte dos filmes. Ora, em que consiste essa filtragem? O aspecto mais evidente e mais importante diz respeito ao contexto narrativo. É errado afirmar que o cinema pobre não possui narrativa, ele possui sim um contexto narrativo, mas que não é evidente, pois é filtrado e depurado. Quase todos estes filmes possuem uma narrativa, um fio condutor, que, durante o processo criativo é reduzido e em algumas situações praticamente anulado. Essa anulação torna-se mais evidente durante a rodagem, é no acto de transformar o filme em imagem que essa filtragem se torna mais visível. Em filmes como o “Pés e o Espírito” todo o universo que forma o filme acaba por ser muito mais amplo do que o pequeno quadro de imagens em movimento que os pequenos fotogramas em super8mm conseguem mostrar, as palavras utilizadas tão pouco o explicam, é apenas através de conversas, de pesquisas, ou apenas através da sensibilidade e do instinto que esse universo mostra a sua verdadeira amplitude. A caminhada a Fátima, no “Pés e o Espírito” não é evidente, ela não é sequer mencionada, através das imagens apenas se depreendem algumas situações e rituais, que são realizados e de que são registados apenas alguns momentos, que não são necessariamente os mais intensos ou importantes de todo o processo. Essa filtragem é por isso nalguns casos, verdadeiramente aleatória. Essa depuração assemelha-se a uma fermentação, a uma transformação alquímica, de que rituais míticos,  peregrinações e até sacrifícios fazem parte. Essa depuração, essa procura, por parte do criador, assemelha-se à busca pelo ouro por parte do alquimista. O ouro, substância inútil, assemelha-se também ao objecto filme, a ambos se atribui um valor que não se associa à utilidade que deles é possível retirar. E embrenhando-nos na mitologia grega, relembremos a lenda do Rei Midas, que se quis fazer valer da capacidade de transformar em ouro tudo o que tocava e, notemos que não deixa de ser relevante que foi Dioniso, o Deus do êxtase e da transformação que lhe deu esse dom. É por isso Dioniso um dos grandes símbolos desse processo, dessa depuração, dessa busca alquímica. É da pobreza do resultado que resulta a riqueza de todo o processo, e é exactamente essa filtragem um dos pontos mais relevantes de todo este cinema pobre, um cinema depurado, filtrado, de que apenas restam imagens cruas, despojadas. É por isso que este é um cinema que quase não existe.   

 

Ricardo Leite, Porto, Outubro de 2005

 

 

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